CAMTA: da crise da pimenta-do-reino ao reconhecimento mundial
Contexto e desafios
A história da CAMTA começa em 1929, quando imigrantes japoneses chegaram a Tomé-Açu (PA) com o sonho de cultivar cacau, arroz e hortaliças. As duras adversidades, como doenças tropicais e o fracasso das primeiras lavouras, levaram muitas famílias à pobreza e ao abandono da colônia.
A virada veio com a pimenta-do-reino, introduzida em 1930, que após a Segunda Guerra Mundial se tornou o "Diamante Negro", levando prosperidade à região e tornando o Brasil o maior exportador mundial do produto na época.
Contudo, no final da década de 1960, a dependência da monocultura mostrou seu risco. A praga da Fusariose dizimou os pimentais, alertando para a necessidade de diversificação na produção.
Objetivos
Diante do colapso da pimenta-do-reino, o principal objetivo da CAMTA foi desenvolver um novo sistema de produção que garantisse a estabilidade econômica dos agricultores. A cooperativa buscou criar um modelo agrícola diversificado, inspirado nos policultivos dos povos ribeirinhos, que imitavam a estrutura da própria floresta.
A meta era ir além da simples substituição de culturas. Mais de 200 modelos agroflorestais foram testados para o desenvolvimento do Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (SAFTA), uma tecnologia socioambiental inovadora projetada para ser produtiva e positiva para o ecossistema local, além de ser replicável para outras comunidades.
Desenvolvimento
O desenvolvimento do SAFTA foi um processo longo, iniciado na década de 70. A CAMTA testou mais de 200 modelos agroflorestais, selecionando as combinações mais promissoras de plantas anuais, frutíferas e espécies florestais.
A metodologia de disseminação dessa tecnologia usou Unidades Demonstrativas, que são escolas práticas onde os agricultores aprendem na ação, formando assim agentes multiplicadores dentro das próprias comunidades.
Para viabilizar e fortalecer essa iniciativa, a CAMTA construiu uma vasta rede de parceiros institucionais, incluindo órgãos governamentais como a Emater e a Embrapa; universidades como UFRA, UFPA e Unicamp; e agências de cooperação internacional, como a JICA do Japão. Essa articulação foi fundamental para aprimorar a tecnologia e garantir o apoio necessário para a expansão do SAFTA.
Resultados e impacto
O SAFTA se provou uma solução transformadora. Atualmente, o sistema ocupa uma área de mais de 7.500 hectares, com uma produção de 5 mil toneladas de alimentos para a agroindústria da cooperativa.
O sucesso do modelo se reflete no desempenho financeiro da CAMTA, que registrou um faturamento de R$ 102,9 milhões em 2024, com exportações para Japão, Estados Unidos, México e Alemanha. A verticalização da produção, iniciada em 1987 com a agroindústria de polpas de frutas, hoje envolve 172 cooperados e mais de 1.800 produtores familiares, gerando cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos.
O impacto da iniciativa extrapolou as fronteiras de Tomé-Açu. A tecnologia socioambiental SAFTA foi compartilhada com sucesso em 25 comunidades distintas na Amazônia do Brasil, Bolívia, Suriname e até em Gana, na África, beneficiando mais de 1.156 famílias e 5.000 pessoas.
Desse modo, o projeto recuperou solos, evitou o desmatamento para abertura de novas áreas produtivas, diversificou a renda e promoveu o desenvolvimento social, melhorando a segurança alimentar e as condições de vida nessas comunidades.
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